sábado, 24 de julho de 2010
Ê, Minas Gerais... (aqui-oh!)
Vem aí o Savassi Festival, grande evento que vai abrigar dezenas de apresentações e workshops, inclusive fechando cinco ruas da região da Savassi, em BH, para montar palcos. Somos parceiros do Festival este ano e organizaremos workshops, além de cuidar de uma parte da programação do palco eletrônico, Petrobras Jazzy.
Parabéns, Bruno Golgher e equipe, por essa empreitada, realmente incrível para uma cidade onde a realidade cultural, para quem sabe um pouco das coisas, é triste e decepcionante em muitos momentos. Precisamos de gente assim, precisamos de iniciativas assim. Muito.
Há muito talento em BH mas BH parece não saber disso. Há muito talento em Minas mas Minas não parece saber disso. Com isso, falta espaço para a arte e o artista na cidade e no Estado.
Por exemplo: minha sogra, que é das artes cênicas, não sabia da existência do grupo Uakti Oficina Instrumental. Que deveria ser, na minha opinião, um dos maiores orgulhos de BH. Seus integrantes são realmente excelentes no que fazem, dominando com maestria a concepção e construção de instrumentos musicais inusitados, a composição e a execução de música. Além disso, são grandes educadores musicais e vêm construindo uma bela carreira há uns 30 anos.
E por que Minas ignora seus tesouros?
Porque em primeiro lugar eles não são mostrados às pessoas como tal, e, em segundo lugar, estas não são induzidas a ver além de suas cidadezinhas, de suas montanhas próximas, de seus barzinhos da vida...
O jazz de Minas, falando no Savassi, merece uma reflexão. Na virada dos anos 60 para os 70, surgiu um garoto chamado Antônio Maurício Horta de Melo, o Toninho Horta, que aos poucos foi conquistando mais e mais admiradores por conta de sua musicalidade, de seu imenso talento, de seu virtuosismo ao violão e de sua visão de composição musical -- que por sinal NÃO valoriza a harmonia acima de tudo como ele mesmo viva falando, mas o CONTRAPONTO polifônico, onde várias vozes vão se somando e desenhando juntas uma complexa estrutura musical final onde harmonia, melodia e ritmo se entrecruzam --. Em algum momento de sua carreira, quando já alçava longos voos internacionais, Toninho Horta abandonou as distorções e as influências mais diretas de rock, abraçando uma escola jazzística e sendo por ela abraçado, de certo modo.
Talvez nosso Toninho jamais tenha desejado isso, mas, nas suas Minas natais, uma enorme legião de músicos ia aparecendo em seu encalço, seguindo seus passos, procurando aprender suas "harmonias" ou, simplesmente, copiá-lo. Outros músicos muito importantes de sua geração, ou mesmo mais velhos, foram sendo esquecidos pela classe: Chiquito Braga (professor de Toninho), Aécio Flávio, Paulo Horta (irmão mais velho e mestre de Toninho) e Célio Balona.
Há outras referências, mas eu me cansei de ver gente muito boa, competente, mas pouquíssimo original, "montada" no Toninho Horta e no Clube da Esquina -- que merece um texto à parte --. Os "Toninho Wannabes", como eu digo. Além disso, há outras estéticas, outras influências, mas o Estado de Minas, a Rádio Inconfidência e os outros veículos que poderiam exibir cultura local preferem os esquineiros e toninhos.
Uma prova da excelência mineira: mestre Marku Ribas de Pirapora é até hoje o único brasileiro a ter participado de um disco dos Rolling Stones. Em 1985. Só por isso (fez tanta coisa...) merece todos os nossos louvores, mas muitos de nós cantamos "parabéns" para alguém, na mesa do bar, enquanto ele está cantando diante de nós. Eu vi essa triste cena na Utópica Marcenaria.
Muita gente, inclusive eu, continua tentando fazer alguma coisa, mas diante de fatos e situações como essas, a capital mineira dá ao artista uma incômoda sensação de sufocamento, falta de espaço e prisão entre suas montanhas. Fica difícil lidar com a tradicional família mineira, com o conservadorismo interiorano, com o fechamento para o mundo além-montanhas dentro de todos nós... algo que deveria estar extinto mas não está. Partir sem passagem de volta passa a ser uma opção considerável. Porém, aqueles que vencem no mundo exterior são recebidos com confetes pelas mesmas pessoas que, anos antes, lhes aplicariam um pé na bunda ou simplesmente ignorariam, entoando seus parabéns desafinados entre goles de cerveja e ideias de carnaval e axé.
Parabéns, Bruno Golgher e equipe, por essa empreitada, realmente incrível para uma cidade onde a realidade cultural, para quem sabe um pouco das coisas, é triste e decepcionante em muitos momentos. Precisamos de gente assim, precisamos de iniciativas assim. Muito.
Há muito talento em BH mas BH parece não saber disso. Há muito talento em Minas mas Minas não parece saber disso. Com isso, falta espaço para a arte e o artista na cidade e no Estado.
Por exemplo: minha sogra, que é das artes cênicas, não sabia da existência do grupo Uakti Oficina Instrumental. Que deveria ser, na minha opinião, um dos maiores orgulhos de BH. Seus integrantes são realmente excelentes no que fazem, dominando com maestria a concepção e construção de instrumentos musicais inusitados, a composição e a execução de música. Além disso, são grandes educadores musicais e vêm construindo uma bela carreira há uns 30 anos.
E por que Minas ignora seus tesouros?
Porque em primeiro lugar eles não são mostrados às pessoas como tal, e, em segundo lugar, estas não são induzidas a ver além de suas cidadezinhas, de suas montanhas próximas, de seus barzinhos da vida...
O jazz de Minas, falando no Savassi, merece uma reflexão. Na virada dos anos 60 para os 70, surgiu um garoto chamado Antônio Maurício Horta de Melo, o Toninho Horta, que aos poucos foi conquistando mais e mais admiradores por conta de sua musicalidade, de seu imenso talento, de seu virtuosismo ao violão e de sua visão de composição musical -- que por sinal NÃO valoriza a harmonia acima de tudo como ele mesmo viva falando, mas o CONTRAPONTO polifônico, onde várias vozes vão se somando e desenhando juntas uma complexa estrutura musical final onde harmonia, melodia e ritmo se entrecruzam --. Em algum momento de sua carreira, quando já alçava longos voos internacionais, Toninho Horta abandonou as distorções e as influências mais diretas de rock, abraçando uma escola jazzística e sendo por ela abraçado, de certo modo.
Talvez nosso Toninho jamais tenha desejado isso, mas, nas suas Minas natais, uma enorme legião de músicos ia aparecendo em seu encalço, seguindo seus passos, procurando aprender suas "harmonias" ou, simplesmente, copiá-lo. Outros músicos muito importantes de sua geração, ou mesmo mais velhos, foram sendo esquecidos pela classe: Chiquito Braga (professor de Toninho), Aécio Flávio, Paulo Horta (irmão mais velho e mestre de Toninho) e Célio Balona.
Há outras referências, mas eu me cansei de ver gente muito boa, competente, mas pouquíssimo original, "montada" no Toninho Horta e no Clube da Esquina -- que merece um texto à parte --. Os "Toninho Wannabes", como eu digo. Além disso, há outras estéticas, outras influências, mas o Estado de Minas, a Rádio Inconfidência e os outros veículos que poderiam exibir cultura local preferem os esquineiros e toninhos.
Uma prova da excelência mineira: mestre Marku Ribas de Pirapora é até hoje o único brasileiro a ter participado de um disco dos Rolling Stones. Em 1985. Só por isso (fez tanta coisa...) merece todos os nossos louvores, mas muitos de nós cantamos "parabéns" para alguém, na mesa do bar, enquanto ele está cantando diante de nós. Eu vi essa triste cena na Utópica Marcenaria.
Muita gente, inclusive eu, continua tentando fazer alguma coisa, mas diante de fatos e situações como essas, a capital mineira dá ao artista uma incômoda sensação de sufocamento, falta de espaço e prisão entre suas montanhas. Fica difícil lidar com a tradicional família mineira, com o conservadorismo interiorano, com o fechamento para o mundo além-montanhas dentro de todos nós... algo que deveria estar extinto mas não está. Partir sem passagem de volta passa a ser uma opção considerável. Porém, aqueles que vencem no mundo exterior são recebidos com confetes pelas mesmas pessoas que, anos antes, lhes aplicariam um pé na bunda ou simplesmente ignorariam, entoando seus parabéns desafinados entre goles de cerveja e ideias de carnaval e axé.
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